Por Moisés Selva Santiago (*)

Faz frio. Depois de 522 anos, mais uma vez a pátria sente o frio da insegurança. Até antes das caravelas portuguesas aportarem – e também de outros invasores europeus – nessa maravilhosa Pindorama o calor tropical reluzia as cores de tantos verdes e tantas nações indígenas. Foi quando impuseram o medo de não lutarmos pela felicidade da pátria amada.
Não se trata de utopia; afinal, é tolice falar de um lugar que não existe. Trata-se de impor o imenso território e as multidões de brasileiros e brasileiras a uma neblina que impede o brilho do melhor lugar do mundo para se morar. Descendo daquelas caravelas desembarcaram a ambição pela riqueza fácil, a fé excludente, a intolerância com o que é diferente, e a maldita politicagem (bem diferente da necessária política), resumidas numa só palavra: corrupção.
Das praias de 1500, essas névoas se espalharam e hoje – como num imenso ciclo vicioso – ainda nos vemos atolados na lama da corrupção, ou seja, no que é apodrecido, estragado, pervertido, adulterado, aviltado, poluído, sabotado, prevaricado… Nenhuma de nossas fases históricas, como a colonial, imperial e republicana, conseguiu dissipar a crosta que nos sufoca como povo que deseja simplesmente viver.
Descobrir o Brasil poderia ter sido bem diferente. O fato é que ainda continuamos a sentir o frio do medo de não alcançarmos a tal felicidade. Mas há uma possibilidade: brasileiros e brasileiras precisam descobrir que mesmo tendo apenas “duas mãos e o sentimento do mundo”, como poetou Drummond, juntos somos mais de 215 milhões de pessoas, ou seja, mais de 530 milhões de mãos para trabalhar e acariciar, construir e consolar, plantar e orar, escrever e criar o país que queremos ser.
Olhando para as eleições que estão aí, já basta de semear a separação do Brasil em dois ou mais currais eleitoreiros. Debocham de nós os que lucraram e lucram com a divisão do povo. Já chega de atentados ao equilíbrio republicano dos três poderes e ao estado democrático de direito. Ninguém aguenta mais ser enganado por notícias falsas e por robôs programados para disseminar mentiras e falta de respeito ao outro. Tampouco podemos suportar a liderança de quem é tudo, menos um estadista.
Sim, porque o Brasil que desejamos só será alcançado com a união de todos nós em torno de ideais bem superiores às corrupções de certos partidos políticos e seus lacaios, ou de quem quer que seja. O fim do frio da neblina da corrupção virá quando sentirmos e praticarmos que somos um só povo que ama a mesma bandeira, que se emociona com o mesmo Hino Nacional, que “não foge à luta nem teme” e que precisa urgentemente aprender a votar. A isso chamamos de descobrimento de um povo.
(*) o autor é jornalista, pastor batista e professor.














