No México não se morre pela boca – Por Geraldo Gabliel

 

No México não se morre pela boca

Ao sabor da Pepper X – Carolinah!

Por Geraldo Gabliel

ALEJANDRA TORRES

Calle San Mateo Atenco, 117

Santiago de Querétaro – QE

MÉXICO

Que no México se come picante – ¡Tío! – mui picante! a gente já sabe. Mas dizer que uma inocente e inofensiva pimenta pode matar um homem numa taberna mexicana, isso já é demais prima…

– ¿Disculpe! Su enlace es bueno? (do lado de cá, na linha, atende Geh Latinus) – era a sua prima Lê:

Aqui, a Carolina Reaper¹ “mata” os clientes nos Restaurantes. Seja no taco, ou seja no tamal; nem a Tequila alivia a dor. Pior que o “Bate e assopra” de Chechén y Chacá! (Não Chacón).

blog/la-leyenda-maya-del-chechen-y-el-chaca

Minha prima tá só o veneno hoje! Tenho até medo que já tenham inventado por lá a transmissão de bafo por ondas de rádio, sendo usada em celulares. Ela me fala de uma pimenta que só o cheiro bafado pode abater um garanhão. Tô fora! Gosto de uma comidinha picante, mas não tão ardida assim que me leve a óbito instantâneo.

A Carolina Reaper foi desenvolvida pelo produtor de pimentas americano Ed Currie. O nome Carolina é uma referência ao Estado em que ela foi desenvolvida, a Carolina do Sul, nos Estados Unidos. “Reaper” quer dizer “ceifador”. Lembra da figura da morte com uma foice? É isso mesmo… a morte iminente!

Mas… Geh Latinus, eu soube que uma outra pimenta desbancou a Carolina, verdade? – Sim! Vejamos…

A Escala de Scoville², utilizada para indicar o grau de ardência das pimentas, tem uma nova rainha: a organização Guinness World Records declarou oficialmente a Pepper X como a pimenta mais ardida do mundo, avaliada em uma média de 2.693.000 unidades de calor Scoville (Scoville Heat Units ou SHU). (Matéria da CNN/Brasil em 18 de fevereiro de 2023).

Aqui no Brasil, os baianos têm fama de ter “boca de fogo” e até lhe perguntam, quando você anda turistando por lá,  ao lhe oferecer um acarajé: – E aê, meu rei!? O acarajé vai quente, ou frio? – Se vem quente, você já sabe – vem ao sabor de Carolina. (ou Pepper X – se essa novidade já chegou por lá, na capital soteropolitana).

Alejandra também se referiu às “árvores gêmeas que – uma oferece um veneno ao caminhante das trilhas da mata; enquanto a outra – o antídoto – para salvar o infortunado que tocar na casca da árvore malvada”. Trata-se de Chechén – (Metopium brownei) “a árvore mais perigosa de todo o México” (vídeo de Oscar Saggeza – no Facebook). Capaz de provocar queimaduras de 2º grau na pele da gente. É uma árvore cascuda, tronco escamoso, folhas onduladas com manchas pretas; sua seiva contém urushiol* que ao tocar a pele da pessoa, causa dermatite, inchaço, produz bolhas, e as queimaduras de 2º grau, já citadas.

Enquanto isso, justo ao lado de Chechén, encontra-se Chacá:  uma árvore de aparência mais delicada, não agressiva. Sua seiva é o antidoto do Chechén. Ambas as árvores são nativas da Península de Yucatán, onde se conta, sobre elas, uma lenda Maia:

– Havia dois irmãos em Yucatán, e eles tinham personalidades muito diferentes, totalmente contraditórias. Chechén, o mais velho,  era rancoroso, cheio de ódio, briguento… E Chacá, o mais moço, era tranquilo, bondoso, generoso. Por alguma razão – talvez pela implicância do irmão mais velho com o mais jovem – começaram uma disputa aguerrida. E o resultado da briga? Ambos foram feridos de morte. O acontecido sensibilizou os deuses Maias, que os transformaram em “árvores gêmeas”. Por isso, lá na Floresta de Yucatán, estão sempre uma ao lado da outra, mas cada qual manteve a sua natureza: Chechén continua destilando maldade pela sua seiva a quem lhe toca; e Chacá – o bom moço – fornece o remédio – antídoto – às queimaduras e feridas provocadas pelo seu irmão maldoso.

Agora, você já sabe: indo ao México, fuja do Chechén; mas se ele lhe tocar, abrace o Chacá, logo ali ao lado…  Que não o veja alguém que não conheça a lenda, e o chame de louco que abraça uma árvore!

Falamos de árvore mais perigosa do México porque esta Crônica está ambientada naquele país norte-americano, mas vou lhes contar, em resumo, sobre a “arvore mais perigosa do mundo”. Conhecida como “árvore da morte” ou Mancenilheira (Hippomane mancinella), é nativa da América Central e ilhas do Caribe, sendo reconhecida por sua alta toxicidade; e perigo, para quem entra em contato com ela. Sua seiva causa irritação na pele, nos olhos e mucosas. O contato com a seiva desta árvore pode causar queimaduras graves e cegueira temporária ou permanente. Os seus frutos, embora pareçam maçãs verdes, também são tóxicos e perigosos se ingeridos. Como sinal de alerta, em alguns lugares, a presença da árvore é sinalizada por cruzes vermelhas em placas de advertência. Desta árvore – nem a sombra lhe convém! (https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2016/06/a-arvore-da-morte).

– Pedi a um ornitólogo para lhe enviar uma fotoimagem de um Quetzal-resplandecente… ¿Bueno? (Alejandra). Sim, claro! Diz Latinus. – Mas por quê?… Tem mistério no ar!

A imagem enigmática chegou. Enviada por Jean-Jacques Audubon**, e a identificação do passeriforme:

quetzal-resplandecente (Pharomachrus mocinno), é um pequeno pássaro encontrado no sul do México e América central que vive em florestas tropicais nubladas. Fazem parte da família frogoniformes […] é majoritariamente onívoro; a sua dieta consiste em frutos de plantas da família lauraleslauraceae, e ocasionalmente  insetos, lagartos, sapos e caracóis.

Sim, mistérios! para as culturas Maia e Asteca, o Quetzal era uma ave sagrada, associada a deidades e a conceitos místico-religiosos, especialmente à figura de Quetzalcoatl, a serpente emplumada. Nestas culturas mesoamericanas o quetzal era considerado uma ave sagrada, com as suas plumas sendo usadas em rituais e adornos de governantes e sacerdotes. A sua beleza e raridade contribuíam para a sua veneração, sendo um símbolo de poder e divindade – ligado à figura de Quetzalcoatl, uma divindade que representa o céu e a terra, a criação e a sabedoria. A sua associação com Quetzalcoatl reforça o caráter místico e sagrado do Quetzal. (Para os Astecas, Quetzalcoatl era um deus criador, que contribuiu para a criação da humanidade). (https://pt.wikipedia.org/wiki/Quetzal-resplandecente)

O Quetzal também pode ser visto como um símbolo de liberdade, pois não consegue sobreviver em cativeiro. Atualmente, é o símbolo nacional da Guatemala, estando na bandeira, no brasão de armas e na moeda do país. Os maias construíram os templos de forma que uma palma na base do templo produzisse um eco que soasse como o chamado desse pássaro sagrado. Em ambas as culturas, o quetzal era o deus do ar – que resplandecia na sua plumagem colorida e iridescente a luz refletida do Sol, que era a uma divindade central – adorado como Kinich Ahau – um pássaro de fogo que vagava pelo Xibalba.

Não exagerando no sabor picante da Carolina, mas com uma pitada de jalapeño e habanero ajís de los buenos! e, tendo falado em lendas e pássaros, a gente se despede por hoje…

A quem queira, uma tequila para brindar… e, como diz o bom baiano: – Pega a visão, meu rei!

Ah! Pimenta nos olhos dos outros? (ou, no seu mesmo) – Leite de vaca! Vi isso na América com os BLM’s.

– ¿Disculpe! Su enlace es bueno? Hasta pronto Alejandra…

*Urushiol – substância oleosa, alergênica e encontrada em várias plantas, como a hera venenosa, o carvalho venenoso, o sumagre venenoso, a árvore laca chinesa e a ameixa donzela.

** Ornitólogo e naturalista reconhecido da América do Norte, por seu trabalho com aves – pesquisador francês-americano  ficou famoso pelas suas ilustrações detalhadas de aves e pela sua obra “The Birds of America”.

¹https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2023/02/14/pimenta-mais-ardida-do-mundo-se-chama-carolina-reaper-e-foi-criada-por-agricultor-americano.ghtml

²https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/pepper-x-se-torna-a-pimenta-mais-ardida-do-mundo-e-supera-a-carolina-reaper/

 

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